EB – Em seus trabalhos instrumentais autorais, quais as motivações para a realização da sua música?
Alberto Rosenblit - Penso que a classificação “Música Instrumental” é meio equivocada. Pelo menos da forma como se entende essa expressão.
Acho que existe a Música com Letra e a Música sem Letra. A Música com Letra inclui o instrumento Voz. A Música sem Letra, não. A Música é escrita para várias formações. Há Músicas escritas para Orquestra Sinfônica. Outras escritas para Orquestras de Câmera. Outras para Quartetos; Trios; Piano & Violino; Piano & Voz; Voz & Violão; Voz Solo; Flauta Solo; Ópera; Piano, Contrabaixo, Bateria & Voz; etc. Uma gama infinita de possibilidades.
Na minha opinião, a Voz é um dos instrumentos mais difíceis de tocar. Qualquer instrumento tem a ajuda do corpo. Mas a voz vem de dentro do corpo. Instrumento delicado e único. Ninguém será capaz de dizer que a voz da Ella Fitzgerald ou da Elis não sejam instrumentos refinadíssimos.
Quando a Música tem uma Letra, o sentimento de quem ouve fica mais dirigido. E, assim mesmo, quando a letra é metafórica, cada um pensa , constrói e sente do seu jeito particular.
Quando eu faço um trabalho sem voz, o ouvinte tem o direito de imaginar o que quiser. E pode até imaginar mais de uma imagem para a mesma música, dependendo do “estado de espírito”.
Minhas motivações são sentimentos, pessoas, fatos, pensamentos. Penso. Sinto. E, às vezes, quando consigo, transformo essas coisas em Composições. No meu CD Trilhas Brasileiras escrevi um pequeno texto. Ele começa assim: “Música me sugere imagem. E vice-versa.”.
EB – No universo instrumental, quais têm sido os desafios para chegar ao momento presente, quais os ganhos, quais as perdas?
Alberto Rosenblit - Confesso que sempre prestei mais atenção nas músicas do que nas letras. Só de uns 10 anos pra cá comecei a focar mais as Letras de Lennon & McCartney. She’s leaving home é poesia pura. Pois é (Tom & Chico) é uma obra-prima do sentimento humano. Mas durante muito tempo, o desafio era entender as construções melódicas e harmônicas. O que já era um trabalho hercúleo. Céu de Brasília (Toninho Horta), uma aula de composição. Mas a letra, pra mim, era secundária. O negócio era saber tocar direito aquelas músicas todas. A gente chamava de “tirar a música”.
Depois veio a admiração pelas orquestrações. Primeiro na chamada Música Clássica. Villa-Lobos, Debussy & Ravel, mestres! Depois as Big Bands. Depois Claus Ogerman. Depois o Cinema: John Williams, Enio Morricone, Nino Rota, Johnny Mandel, Bernard Hermann, Max Steiner, James Newton Howard, James Horner. E tantos outros. Muitas texturas. Muitas combinações. Muito encantamento. O jeito de se colorir e vestir a Música.
Quando comecei a ter a oportunidade de escrever para formações orquestrais, maiores ou menores, o grande desafio sempre foi tentar aprender ouvindo. Entender o que se está ouvindo. Pra poder reproduzir um pouco daquelas sonoridades maravilhosas que tanto me apaixonaram e apaixonam. Só consigo contabilizar ganhos.
EB – Você está lançando um cd de canções, em que solistas vocais são adicionados à sua música. No processo de produção sonora, como foi reverter seu “universo” melódico, redirecionando-o ao ambiente musical do intérprete?
Alberto Rosenblit - Essa experiência foi enriquecedora. Quando pensei este projeto, rapidamente entendi que a letra já era parte do arranjo. E por conta disso eu teria que tomar cuidado para não “entulhar” as faixas com orquestrações exageradas. Teria que dar o espaço certo para que as letras ficassem com sua “visibilidade” assegurada. Isso sem falar no tal “instrumento voz” que deveria estar sempre no lugar de honra. O Solista.
Não foi a primeira vez que fiz arranjos para músicas com voz. Mas foi meu primeiro projeto neste formato: canções. Num trabalho autoral.
Em geral, quando gravo tudo já está escrito. Então costumo gravar as bases já sabendo que instrumentos virão depois. No caso do De Bem Com a Vida foi diferente. Gravei as bases na intenção de deixar o maior espaço possível para os cantores. Só pensei em arranjo e orquestração depois. E as sonoridades foram escolhidas sempre na intenção de complementar o canto. Mas sem “atrapalhar” ou “entulhar”.
Vejo a voz como mais um instrumento. Por sinal, muito especial. E, como tal, tem o seu lugar de destaque na orquestração. O "lugar" que ela ocupa não pode ser ocupado por mais ninguém. E os instrumentos em volta dela têm que timbrar de forma a complementar. E nunca "brigar".
EB – Como você vê o universo instrumental brasileiro contemporâneo? Há diferenças significativas no interesse do mercado por este tipo de “fazer musical”?
Alberto Rosenblit - Eu não entendo muito de mercado. Mas vejo que as lojas onde se vende CDs têm já a gôndola de Música de Cinema e de TV. A Som Livre está implementando um projeto interessante: as novelas da TV Globo agora agregam, além dos CDs Nacional e Internacional, o CD com a Música Original composta pelo Produtor Musical da novela. No meu caso foi lançado, em janeiro, o CD da novela A Favorita.
Vejo também que os bons instrumentistas que há tantos anos vêm gravando músicas com ou sem letra estão com seu prestígio assegurado. Pela qualidade de seus trabalhos e pelo fato de continuarem nessa luta tão difícil por anos a fio. Difícil porque vivemos num país onde a cultura tem que ser consolidada com luta. Normal seria se a cultura fosse tratada como um meio de consolidação da Soberania de um país.
Trilhas Brasileiras
Alberto Rosenblit define a música como um aparato repleto de imagens e movimentos, sugerindo que, neste universo, cada um dê sua interpretação. Pessoalmente, creio que esta seja a melhor tentativa de significação do que a música provê, ou seja, o “ato” percorrerá o cotidiano da formação subjetiva. Assim, coloco a “música como sentido” em um manancial de fluidos que perpassam a alma e nos colocam num plano possivelmente mais aberto em seus significados, onde se pode crescer.
Trilhas Brasileiras é repleto de vidas em ritmos, melodias, harmonias encomendadas pelo sentimento inegável de nossos sonhos. Cada trilha arquitetada por Rosenblit é de uma exuberância ímpar em sua verve lúdica, repleta de inspiração; além de outras qualificações mais técnicas, as Trilhas Brasileiras nos preenchem de beleza e alegria a cada acorde, por sua intensidade. O que seria a música senão uma realização em formato amoral e aético, numa abstração significada na própria alma? No entanto, quantos são os significados íntimos com os quais, ouvintes, entramos em contato, através desta música?
Trilhas Brasileiras seria a trilha sonora original de um filme bastante curioso, no mínimo. É mediante a exuberância de suas músicas que se vêem as felizes idéias sonoras que contemplaram a novela A Favorita e a minissérie Mad Maria. A observação atenta de referenciais de qualidade inegável, as exigências regidas por um olhar lúdico, entre outros fatores, trazem a Rosenblit a qualificação de um grande compositor e realizador.
Alberto Rosenblit está lançando o álbum de canções De bem com a vida, onde é reconhecida a verve musical que identifica sua linguagem, sem perdas quaisquer no que ele cita como “excessos”. O músico sai do universo da música sem voz para incorporar a voz, como citado na entrevista, onde se agrupam grandes intérpretes: Ivan Lins, Boca Livre, Mônica Vasconcelos, Ney Matogrosso, Joyce, Zé Renato, Zélia Duncan; Celso Fonseca; Leila Pinheiro; Arranco de Varsóvia e Lenine. As canções de Alberto Rosenblit são ornadas por letristas não menos competentes que Paulinho Tapajós, J.C.Costa Neto, Luiz Fernando Gonçalves, Joyce, Xico Chaves e Ricardo Brito. O conjunto, agrupado a um time de músicos de primeira, se entranha na música com a fluidez da composição de Alberto Rosenblit.
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