Revista - Edição 01 - Outubro/2009

Acordeon Brasileiro de Adelson Viana - Biscoito Fino

Por: Erico Baymma

Anuncia-se a gafieira quando a sanfona avisa que vai chorar e volta o saxofone pra dizer que é justo estar neste susto descomunal e que é normal não ser igual e existir junto. Choro pro Adelson, em Acordeon Brasileiro de Adelson Viana: alegre, eufórico e preciso percorrer caminhos sabidos; este é o prefácio de um senhor acordeon que acorda tantos valores de vida, quando mais se enreda outro forró que De Leve cumpre a sina do forró: digno, de serra como se diz aquele negócio que arrasta pé e poeira, noutro caminho sensual, quase tradicional, de sentir-se meio ao som, no tom próprio da junção dos corpos flúidos dos encontros das possibilidades de si ao outro em vice e versa. Hora de sentar se anuncia no Disfarçado, contando que choro com forró estão próximos como jazz do blues, bossa nova, como a música brasileira popular, todas as tradições juntas perfazendo caminhos impossíveis de saber, marcando o rebolado que não se contem, mas não dispensa sua verve. Serve-se de outro anúncio da sanfona sem-vergonha que não arrefece ânimos já espalhados para um forró chegadinho, de pé a pé, sentido aural que se deslinda em ondas de quem sente a estrutura e concebe a usura perfeita pra que se faça um Óros, o desenho de um açude repleto de síncopes, qual jazz e forró e o sambinha, um indecifrável caminho, que não se limita a “um mesmo”. Aponta choro dentro do forró-jazz? Uma melodia refaz em dolência em meio à troca vital. Pra que não se perca os passos, Da cidade ao sertão compassa forte o desejo dos órgãos do corpo estirados até os pés – não se deixam nada calados. Corpos suados, malemolência do sentido à melodia que flutua e incorpora dança e contemplação. Devidamente revigorados, o frevo se impõe na sanfona, na bela orquestra que segue e embeleza um dos maiores estilos populares do país, com sua graça, relida e risível pelos malabarismos de vigor do Ponta Pé. Abrangendo outros caminhos, anuncia-se um tango, misturado a tantas tradições mescladas para ir Subindo às Nuvens no duo de violão e acordeon – uma conversa séria que acaba em riso, quando o sotaque vira francês e revela o entrelaçamento de um desafio vingado. Aí, só um chorinho bem chorado, Do mestre ao discípulo, dada aqui à imensa generosidade de Dominguinhos, artista maior, ao “iniciante” Adelson Viana, em sua maravilhosa veia de melodia e harmonia tão belas quanto aquilo que arrepia e que a gente tenta esconder e não dá! Grandioso! Tão grandioso como o que se segue em Caros Amigos, choro choradinho, significado suporte essencial de vida. A delicadeza da melodia é encantadora e repleta de vitalidade, chega ao coração aliada ao gracejo supremo de um cearense malandro, do BEM. Bem, chega a Quixadá, de Adriano Giffoni: um olhar tão amoroso que entremeia o diálogo do sol com a sombra, o alívio e seu motivo, essas coisas que se complementam para brindar a existência uma da outra, pelo prazer dos sentidos no “xotezim” danado de gostoso. Chora-se novamente a alegria de vida em Influência do Choro, onde o mestre Tarcísio Sardinha vem com seu cavaco esperto e delicia os amigos e afronta de novo o acordeon inquieto e preciso como um duelo de chopps bem geladinhos. O brinde traz, então, a valsa Escalada de Zivaldo Maia, um exercício de virtuosismo, onde o duelo de violão e acordeon é o mais acirrado momento de vigor de sílabas sem respiração, quase em moto-perpétuo. O show das virtuoses é uma pequena amostra de dois grandes compositores e instrumentistas que fecham este maravilhoso trabalho.

O Acordeon Brasileiro de Adelson Viana tem o lirismo de um grande trabalho plástico vivo, repleto de movimentos nos personagens, nos quais se sente dançar a sensualidade incisiva e moleca nas composições. O álbum traz as participações especialíssimas de Dominguinhos e Spok Frevo Orquestra, os quais abrilhantam ainda mais a sonoridade grandiosa da proposta contida no trabalho.

A proposta musical traz uma interlocução entre forrós, choros e xotes às sonoridades das cidades grandes, como quem, com veia de amabilidade, enche os sons de sentimentos delicados, puros e, por vezes, mais intensos, de forma a preencher o ouvinte de imagens do mundo, sonhando com a mistura de algo fora daquilo que esteja ouvindo e com o todo, que é um universo especialíssimo. Não é possível fugir ao encanto natural do remelexo impresso nas vozes dos instrumentos que fazem este grandioso trabalho.

Adelson também está lançandos dois CDs que “castigam no forró de serra”, o mais típico e poderoso dos sons cultivados no Ceará, com sonoridade pura de um balanço pra lá de sensual, que é um dos maiores valores da grande arte brasileira. Chamam-se Da Cidade ao Sertão (participação especial de Dominguinhos e Maciel Melo) e Adelson Viana.

Adelson Viana é acordeonista, tecladista, compositor, arranjador e produtor musical. Já fez diversas apresentações com Zeca Baleiro, Dominguinhos, Lenine, Naná Vasconcelos, Paulo Moura, Fausto Nilo, Nonato Luiz, Waldonys, Manassés e Fagner.

 

Copyright © 2001-2009 Alô Música
Todos os direitos reservados
publicado por HTDocs