Opinião :: Homenagem

Cristina Buarque

Por: Ana de Hollanda

Falar da Christina profissional não é fácil pois eu deveria, na medida do possível, dissociar a cantora da irmã, o que seria honestamente inviável. Vou tentar então, sob uma ótica de coadjuvante, contar um pouco como pude observar sua personalidade forte e independente se manifestando na música.

Uma das imagens mais presentes que tenho de Christina adolescente é daquela estranha figura loira de cabelos encaracolados, enfurnada embaixo da escada, entre o moderno móvel de aparelho HI-Fi e o piano, propositalmente muda e invisível para quem entrasse, saísse ou passasse por aquela sala - ponto de confluência da casa toda - escutando avidamente os programas de rádio preferidos. Ela já tinha suas predileções claras. Ouvia com atenção e sabia discernir perfeitamente o que era bom, o fraco, o oportunista, o inovador e as imitações. Christina sempre foi implacável nas opiniões. Nessa mesma época, com um cavaquinho na mão, tentava imitar o som dos bons sambas e choros. Nós, as três irmãs menores, fazíamos vocais para as primeiras composições de Chico, o que ela encarava com a maior seriedade. Não foi por acaso que aos dezesseis anos foi convidada por Paulo Vanzolini a interpretar no seu LP produzido por Marcus Pereira, o samba Chorava no Meio da Rua. Pouco depois foi Chico quem a convidou para cantar com ele Sem Fantasia em seu terceiro LP. Criamos nessa época um sexteto formado pelas irmãs - Piii, Christina e eu - e mais três amigos - Fred, Junqueirinha e Ceará. Cantávamos basicamente sambas antigos e algumas canções de Chico e do (Chico) Maranhão. Acho que ela sempre foi a mais rigorosa de todos na pesquisa de repertório, no estudo das letras e na divisão das vozes. Enfim, com toda democracia e desorganização naturais e saudáveis do grupo, a batuta acabava mesmo era na mão da nossa caçula. O sexteto foi aos poucos se desfazendo, mas ela continuava firme em sua inegável paixão pela música e, em especial, pelo samba. Christina era a Musa do Bar do Seu Zé, na Rua Maria Antônia, onde estudantes, afins e amantes de um bom som em geral, se reuniam para escuta-la interpretar com aquela voz delicada e perfeitamente afinada, raridades que não se sabia de onde ela tinha desenterrado. Mas só obras-primas.

Quanto ao que veio depois, não vou acrescentar mais nada: sua produção está aí para ser escutada e apreciada. A pesquisadora meticulosa, a cantora de timbre doce e a intérprete impecável que já se manifestavam na adolescência, felizmente prosseguem na trilha de uma arte maior...

Foto: 1952/54 - Roma. De cima para baixo:
Miucha, Sergio, Álvaro, Chico, Maria do Carmo, Ana e Christina.

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