Entrevista

Aloizio Jordão

Por: Solange Castro

Jordão é um homem de sensibilidade rara - de gosto requintado, mas sem qualquer preconceito, é capaz de ir do Rock'n Roll ao Bolero com a maestria de quem é "livre", sem agredir a quem tem a honra de ouvir suas preferências musicais... Ele tem música na alma, no sorriso...

Como pesquisador, gentilmente aceitou o convite para participar

de nossa Equipe, e temos certeza que será de uma

riqueza enorme o acervo que nos mostrará...

Bem vindo, Jordão!

Solange Castro - Alô, Jordão - nos conte - como a música entrou na sua vida?

Aloizio Jordão - Bem, desde que me entendo por gente. Sou de uma família de 21 tios, daí pode se imaginar a variedade de gostos de cada um. Ouvi de Beathles a Perez Prado, passando por Novos Baianos e Jorge Ben, Egbero Gismonti, Antonio Adolfo, Jovem Guarda e as canções do Roberto. E isso sem contar com a Bossa Nova e muitos Boleros. Assistia pela TV Festivais de MPB ou mesmo o F.I.C. (Festival Internacional da Canção) com a família reunida para torcer por alguém. Pra dizer a verdade, ainda me lembro perfeitamente do Tony Tornado e a "BR 3", puro soul.

Mas faço parte de uma geração Rock'and Roll e como não poderia ser diferente - cresci ouvindo a ELDOPOP, BIG BOY, MÚSICA CONTEMPORÂNEA, assistindo ROCK CONCERT e tudo o que estava presente dentro desse universo.

Então comecei a descobrir as Bandas de Rock que influenciaram o mundo todo com seu som elaborado, e isso começou em meados dos anos 70 quando começo a prestar atenção nas músicas que o meu vizinho estava ouvindo. Descobri FOCUS, fiquei fascinado com aquele som vibrante e comecei a tomar gosto pelo rock progressivo, além, é claro, de outras bandas como DEEP PURPLE, LED ZEPPELIN, YES, PINK FLOYD, THE WHO e tantos outros que fui ouvindo e descobrindo cada vez mais sobre eles.

Naquela época existiam equipes de som em clubes de bairro e todos respiravam o mesmo ar do Rock. Paralelamente, existiam outras vertentes da música que eu também adorava ouvir, mesmo porque ouvia muito rádio. Era possível ouvir Tim Maia, Gal, Caetano, Jorge Ben, Milton, Chico, Bethânia, Ednardo, Belchior, Geraldo Azevedo, Alceu Valença e tantos outros. Depois de algum tempo um tio meu, Joãozinho (ele gosta de ser chamado assim, nada mais justo) convidou-me para ir a sua casa ouvir umas músicas. Era uma pessoa muito próxima e sabia do meu gosto pelo Rock, então me perguntou o seguinte: - "você gosta mesmo de Rock?" Eu respondi que sim, adorava as guitarras e os solos de bateria, tudo. Ele sacou um LP da Mahavishnu Orquestra (Birds of Fire) e colocou.

Pirei - depois veio Billy Cobham (Stratus), Miles Davis (Kind of Blue), Chick Corea, Chet Baker, John Coltrane, Stan Getz, Charles Mingus e tantos outros.

Daí pra frente eu ia sempre na casa dele, para ouvir cada vez mais e aprender com um cara que já tinha uma bela coleção de discos de Jazz. Por muito tempo, ele me apresentou um vasto material e graças a ele meu gosto não só pelo jazz, mas como pela música de uma maneira gera,l aumentou consideravelmente. Aprendi a ouvir e como se tratava de música instrumental, eu criava minhas próprias imagens. E isso foi só o começo de uma grande viagem.

Solange Castro - Como assim, "criar imagens"?

Aloizio Jordão - Criar imagens é a grande viagem que faço ouvindo a música instrumental - como não tem letra, você está á vontade para criar suas próprias imagens e assim por diante...

Solange Castro - Como você tem acesso às músicas que estão chegando no mercado? Principalmente as brasileiras, onde o que há de melhor não chega ao público...

Aloizio Jordão - Essa é uma infeliz e dura realidade. Felizmente conheço alguns músicos que têm outros amigos músicos que têm outros amigos... Faço parte da "Sociedade Musical de Macaé" e tenho a oportunidade de ver e ouvir muita gente por lá, embora a sociedade não consiga levar todo mundo para se apresentar. Independente disso, vou trocando informações com outras pessoas. É muito deprimente saber que num país com tantos talentos aconteça uma coisa assim, todos à margem do mercado fonográfico e pior, praticamente anônimos.

Solange Castro - Isso é um absurdo - até a auto-estima do povo vai por água abaixo, já que não conseguimos ter contato real com a nossa identidade cultural...

Aloizio Jordão - Não estou aqui para comparar quem está na mídia com quem está no anonimato, só acho que existe uma total inversão de valores.

Solange Castro - Você é muito ligado na nossa música instrumental - o que tem de bom acontecendo?

Aloizio Jordão - Infelizmente não está acontecendo muita coisa por aqui, especialmente no Rio... Pararam de promover eventos de música instrumental. Comparado ao que se via antes, estamos resumidos a quase nada.

Existem lugares maravilhosos no Rio que antes o carioca tinha o prazer de ir, sentar e apreciar uma boa música. É claro que estamos passando por um momento econômico delicado, mas algumas instituições parecem ter dado as costas para esse tipo de evento...

Solange Castro - Sim, principalmente espaços públicos, como o Parque Garota de Ipanema, a Catacumba, e tantos outros...

Mas os músicos estão fazendo sua parte...

Aloizio Jordão - Sim, tem gente fazendo música com qualidade, com identidade, com a cara do Brasil... Nada de copiar nada de ninguém, o mercado da música brasileira tem que aquecer URGENTE... Mas acho que isso não convém a certas pessoas que só estão preocupadas em fazer volume de venda. Ou seja tem que ser bonitinho e rebolar bem.. rssss

Às vezes me pergunto, onde estão os grandes projetos de música que o Rio promovia?.. Passamos pela crise da Funarte, pela extinção do Projeto Pixinguinha que silenciou por tanto tempo... As pessoas frequentavam os auditórios e se deliciavam com o que havia de melhor na música brasileira... E isso com um preço razoável... Tinha samba, jazz, cantores e músicos de renome e tudo por um precinho...

Solange Castro - Sim, as coisas mudaram muito - os Teatros do Rio ficam em sua maioria somente com "artes cênicas" e a música está reduzida praticamente aos bares e casas de espetáculos que cobram fortunas...

E tanta "música" sendo composta...

Você comentou sobre o Projeto Pixinguinha - enfim ele está voltando... Esse espaço para novos talentos é fundamental... Você indica alguma rádio ou algum outro veículo para quem quer conhecer "música"?

Aloizio Jordão - As rádios poderiam de fato fazer isso se não fosse a institucionalização daquela nojeira chamado jabá - isso é uma postura medíocre de gente que não tem o menor compromisso com nada... A gravadora impõe e algumas rádios até tocam, mas a pergunta é a seguinte: e quem é independente?

Solange Castro - Nós - rs... Eles são completamente "dependentes"...

Aloizio Jordão - As rádios não tem compromisso com quem não tem dinheiro, por melhor que seja o trabalho, se pagar muito eles podem até tocar, caso contrário ...

Solange Castro - Olha, se fosse só isso a vergonha seria menor - o problema é que as majors mandam nos horários das 7 às 19 horas e só toca o que eles querem... Se houvesse "tabela" e "democracia" seria menos sujo...

Aloizio Jordão - Sim, por isso o músico muitas das vezes se obriga a acompanhar alguns cantores para que possam sobreviver, as gravadoras massificam esse lixo todo e os que estão descobrindo o universo da música agora, possívelmente vão crescer achando que isso é o que restou pra ele ouvir... Lembra da velha frase que dizia: Música é cultura ?

Solange Castro - Foi-se o tempo... E o mais deprimente é que lá fora o mundo tira o chapéu para ela... Mas...

Jordão, quem está chegando no mercado? Principalmente na música instrumental, quem são os novos talentos?

Aloizio Jordão - Olha, tem muita gente bacana entrando no mercado... Daria pra fazer uma relação enorme, quero dizer o nome de alguns que já ouvi e gostei muito, vou colocar no alomusica.com.br e comentar - adorei a música do Dino Rangel (guitarrista) álbum "Café"... Um belíssímo trabalho mostrando uma música instrumental de altíssíma qualidade. Recomendo.

Mazinho Ventura (baixista), álbum "Ventura"... Um baixista de mão cheia, com arranjos belíssimos e super antenado com o que existe de melhor na música instrumental... Destaque para as faixas - "Nebulosa" e "As good as love". Marimbanda - um quarteto da pesada, com músicas super refinadas - destaque para a faixa - "Morangotango"

Solange Castro - Nossa - esse povo que você citou monta um Festival de primeira... São ótimos realmente...

Aloizio Jordão - O Mazinho Ventura teve seu show eleito como o melhor show do Festival de Jazz de Guaramiranga

Solange Castro - Esse Festival é o máximo... E cresce a cada ano...

Aloizio Jordão - Mas vai crescer sempre e sabe porque? O povo lá acredita no verdadeiro potencial da música instrumental no Brasil..

Solange Castro - Isso é maravilhoso...

Fora a música instrumental, você sente algum novo "talento" aparecendo na nossa música?

Aloizio Jordão - Sim , já ouvi a prévia de uma super banda de pop chamada "Sucata de Luxo" - os caras fizeram duas releituras, uma do Zé Rodrix (Soy latino americano) e outra do Chico Buarque (Feijoada completa). É uma banda super antenada e daqui á pouco vamos ter o prazer de ouvi-los .. O trabalho está quase finalizado.

Solange Castro - Maravilha...

Aloizio Jordão - Eu realmente gostaria de falar da nossa música, do que está esquecido, das coisas que as gravadoras se recusam a reeditar... Se você parar pra pensar, nos Estados Unidos, por exemplo, Louis Armstong é um ícone, bem como Sinatra, Ella Fitzgerald e mais uma centena de outros artistas... Aqui no Brasil, quem é que toca por exemplo Altamiro Carrilho, Moreira da Silva, Jackson do Pandeiro... Não precisamos ir tão longe, quem toca Gonzaguinha? Quem toca Zimbo Trio, quem toca a diva Leny Andrade, que lota os teatros no exterior?

Um povo sem memória musical é um povo sem identidade...

Quem toca Carlos Malta, Jovino dos Santos Neto, Hermeto Paschoal?

Quem toca Odair e Sérgio Assad? Victor Assis Brasil, Paulo Moura, Hélio Delmiro?

Como pode um País como o nosso dar as costas pra toda essa gente?

Nivaldo Ornelas, Egberto, Baden... Nossa, eu ficaria a noite inteira escrevendo o nome de cada um deles. Se bem que a caixa do Baden saiu... Demorou, mas saiu..

Os caras deveriam ser venerados, cultuados pelo conjunto da obra... Cada um deles.

Solange Castro - E você vai falar desse povo todo aqui no Alô?

Aloizio Jordão - Sim , claro que vou...

Solange Castro - Aqui no Alô recebemos obras belíssimas - não somente instrumental, vem muita mpb de primeira qualidade - você vai ter oportunidade de conhecer coisas fantásticas.. Acabei de receber sete discos da "Pôr do Som" - trabalho maravilhoso dessa Gravadora...

Aloizio Jordão - Quero ouvi-las com o maior prazer e se puder comenta-las será mais prazeroso ainda - Espero ter a oportunidade de faze-lo em breve...

Adorei o convite do Alô Música para comentar alguns trabalhos que já estão no ar...

Solange Castro - Nossa equipe é que se sente honrada de te ter aqui, Aloizio - super bemvindo e muito obrigada - tenho certeza que nossos usuários vão adorar te conhecer mais e mais...

Aloizio Jordão é empresário e pesquisador de música.

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